Plantcast #159 Saúde do solo como base da sustentabilidade agrícola

Apresentadores
Saúde do solo: a base para uma agricultura mais produtiva, resiliente e sustentável
A saúde do solo tem se consolidado como um dos temas centrais da agricultura moderna. Mais do que um conceito técnico, ela representa uma nova forma de compreender o solo como um sistema vivo, capaz de sustentar a produtividade das culturas, reduzir riscos frente às mudanças climáticas e garantir a sustentabilidade dos sistemas agrícolas ao longo do tempo. Esse foi o foco do episódio do PlantCast que contou com a participação do professor Maurício Roberto Cherubim, do Departamento de Ciência do Solo da Esalq/USP, uma das principais referências nacionais e internacionais no tema.
Ao longo do episódio, o professor compartilhou sua trajetória acadêmica, a evolução do conceito de saúde do solo, dados científicos recentes e exemplos práticos que ajudam a traduzir esse tema para a realidade do campo brasileiro.
A trajetória de quem estuda o solo como um sistema vivo
Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, o professor Maurício Cherubim construiu sua carreira acadêmica com foco na interface entre agricultura e meio ambiente. Após o mestrado e o doutorado em Ciência do Solo pela Esalq/USP, teve a oportunidade de atuar em grupos de pesquisa de relevância internacional, incluindo uma passagem pelo USDA, nos Estados Unidos, onde teve contato direto com os conceitos de qualidade e saúde do solo.
Atualmente, é docente da Esalq/USP, coordena o grupo de pesquisa SOMA e lidera o CCARBON – Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical, iniciativa multidisciplinar voltada a compreender como o manejo do solo pode aumentar a produtividade agrícola e, ao mesmo tempo, ampliar a resiliência dos sistemas frente às adversidades climáticas.
Como surgiu o conceito de saúde do solo
Durante décadas, o manejo do solo esteve fortemente baseado nos aspectos químicos e físicos, especialmente na fertilidade e na correção da acidez. Esses avanços foram fundamentais para o desenvolvimento da agricultura tropical, mas, a partir da década de 1990, pesquisadores passaram a perceber que esse olhar não era suficiente para explicar toda a complexidade dos sistemas agrícolas.
Nesse contexto, surgiu o conceito de qualidade do solo, desenvolvido inicialmente por grupos de pesquisa ligados ao USDA. Com o avanço das metodologias científicas e um maior entendimento da biologia do solo, o conceito evoluiu para o que hoje chamamos de saúde do solo, reconhecendo o solo como o compartimento mais biodiverso do planeta e um verdadeiro ecossistema vivo.
Atualmente, entende-se que um solo saudável é aquele que apresenta equilíbrio químico, físico e biológico, permitindo que desempenhe suas múltiplas funções: sustentar o crescimento das plantas, ciclar nutrientes, armazenar carbono, regular a água no sistema e contribuir para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
O Brasil no cenário global da saúde do solo
Apesar de ser um tema relativamente recente, a saúde do solo apresenta um crescimento científico acelerado. Segundo o professor Cherubim, cerca de 75% do conhecimento gerado sobre o tema foi produzido nos últimos dez anos, e metade desse volume apenas nos últimos cinco.
Nesse cenário, o Brasil ocupa posição de destaque. O país é atualmente o quarto maior produtor de conhecimento científico em saúde do solo, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia. Além da produção acadêmica, o diferencial brasileiro está na capacidade de transformar ciência em prática, graças a um ecossistema que envolve universidades, empresas, cooperativas, consultorias e produtores cada vez mais abertos à inovação.
Saúde do solo e resiliência frente às mudanças climáticas
Com o aumento da frequência de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, estiagens e chuvas intensas, a saúde do solo ganha ainda mais relevância. Segundo o professor, solos bem manejados funcionam como um verdadeiro “sistema imunológico” das plantas, reduzindo sua vulnerabilidade ao estresse ambiental.
Pesquisas conduzidas pela Esalq em diferentes regiões do Brasil demonstram que sistemas agrícolas mais biodiversos, com uso de plantas de cobertura, rotação de culturas e maior aporte de matéria orgânica, apresentam ganhos expressivos em eficiência do uso da água. Em experimentos realizados no Mato Grosso, sistemas diversificados chegaram a dobrar a eficiência hídrica em comparação a sistemas mais simplificados.
Esse resultado é especialmente relevante diante das projeções climáticas, que indicam um Cerrado cada vez mais quente e seco nas próximas décadas. Investir em saúde do solo, portanto, não é apenas uma estratégia de mitigação, mas principalmente de adaptação.
Como medir a saúde do solo na prática
Um dos desafios do conceito de saúde do solo é sua mensuração. Diferentemente da análise química tradicional, que avalia nutrientes específicos, a saúde do solo envolve múltiplos indicadores dinâmicos, físicos, químicos e biológicos.
Além da análise química de rotina, o professor destaca a importância de avaliar parâmetros físicos, como infiltração de água e compactação, e indicadores biológicos, como a presença de minhocas e a atividade microbiana. Pensando em tornar esse diagnóstico mais acessível ao campo, a Esalq desenvolveu o Kit SOMA, uma ferramenta portátil que permite avaliar rapidamente indicadores-chave de saúde do solo diretamente na lavoura.
Reconhecido internacionalmente pela FAO como uma das inovações globais em gestão de solo, água e recursos naturais, o Kit SOMA permite que produtores e consultores obtenham um diagnóstico prático em menos de uma hora, com a possibilidade de gerar relatórios digitais para acompanhamento ao longo do tempo.
O papel do manejo e da nutrição na saúde do solo
Segundo o professor Cherubim, não existe solução única para promover a saúde do solo. O caminho passa por um conjunto de boas práticas agronômicas, integrando manejo cultural, uso de plantas de cobertura, sistemas integrados e nutrição equilibrada.
No contexto brasileiro, onde muitos solos ainda apresentam deficiência nutricional, os fertilizantes e corretivos desempenham papel fundamental. Uma nutrição adequada favorece o crescimento das plantas, aumenta a fotossíntese e o aporte de carbono ao sistema, criando um ciclo positivo que fortalece a biologia do solo e melhora sua funcionalidade ao longo do tempo.
Perspectivas futuras para a saúde do solo
O futuro da saúde do solo está diretamente ligado à agricultura regenerativa, ao desenvolvimento de métricas confiáveis e à criação de ferramentas que permitam monitoramento em escala. O professor destaca que os indicadores de saúde do solo tendem a se tornar métricas de risco, sendo utilizados por instituições financeiras, seguradoras e políticas públicas para avaliar a sustentabilidade e a estabilidade produtiva das lavouras.
Além disso, novas soluções em nutrição vegetal e bioinsumos devem ampliar as possibilidades de manejo, desde que avaliadas com base científica sólida. Iniciativas como o primeiro mapa de saúde do solo da América Latina, desenvolvido pela Esalq, mostram o avanço do Brasil nessa agenda e o potencial de liderança global nos próximos anos.
Solo saudável, agricultura forte
O episódio do PlantCast reforça que investir em saúde do solo é investir no futuro da agricultura. Mais do que produzir mais, trata-se de produzir com estabilidade, previsibilidade e menor risco, conciliando produtividade, sustentabilidade e adaptação às mudanças climáticas.
O PlantCast é uma produção da ICL, reforçando seu compromisso com a ciência, a inovação e o impacto para um futuro sustentável.


